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domingo, 22 de junho de 2014

SOBRE A SENTENÇA


Pois é, acabei de perder minha filha.
De novo?
Sim, de novo.
E, de novo, a mesma filha!
Como pode alguém morrer duas vezes?
Ah, esqueça aquela coisa de que ela está viva no meu coração e todas aquelas frases feitas dos manuais que tratam o tema "como lidar com mães que perderam filhos".
Opa! Esses manuais não existem, tinha me esquecido!
Pois bem...
Há 3 anos e 3 meses eu a enterrei graças a um motorista imbecil e irresponsável que, por conta de sua imprudência (velocidade, falta de atenção ou o que diabos foi...), invadiu com seu carro o ponto de ônibus onde ela estava e a matou.
Essa parte da história todo mundo já sabe.
O que nem todo mundo sabe, além dos pais que enterraram seus filhos, é que, a partir do momento em que saímos do cemitério, começamos uma luta, cada um a seu modo, por aquela coisa que, embora já tendo ouvido seu nome, nunca havíamos precisado dela.
Ela?
Ah, sim: a justiça!
Aguardei 3 anos pelo julgamento do atropelador, e essa espera gera uma sensação que é mais ou menos como a de esperar um trem numa estação desativada: sabemos que existem trilhos ali, mas daí a ver o trem passar existe muita diferença!
Assim é nossa espera por justiça.
E sabe por que?
Porque não haverá, nunca, uma sentença satisfatória que penalize o assassino de um filho nosso, a menos que nos fosse permitido serrar-lhes braços e pernas com um serrote de marcenaria.
Ok! Isso não seria justiça, não é?
Dane-se!
Eu aceitaria o direito à vingança! Ótimo!
E digo mais: faria isso com excesso de prazer e ausência absoluta de remorso.
Sim, eu poderia viver com isso sem nenhum drama de consciência.
Mas as coisas não são assim, como bem sabemos...
Passei a me perguntar qual seria o valor da vida da minha filha de acordo com as nossas leis ordinárias.
A vida de um filho não tem preço, é fato!
Mas, no último dia 18, foi publicada a sentença dada ao animal que a matou e, dessa forma, como mais um produto a ser etiquetado numa prateleira de supermercado, o valor de sua vida fora determinado por uma lei que afaga a impunidade e que ri na cara das pessoas de bem: "condenado a 2 anos e 8 meses de detenção, sendo que a privação da liberdade fora substituída por serviços comunitários, pagamento de UM SALÁRIO MÍNIMO à uma creche conveniada ao fórum e suspensão da CNH pelo período de DOIS MESES e VINTE DIAS."
No dia 18/06/14, minha filha morreu de novo. E morreu envergonhada, tenho certeza disso.
Nessa mesma data, minha insanidade se multiplicou.
Esse é o tipo de condenação que não pune, mas que premia o criminoso.
E quanto a nós?
A nós, resta engolir uma sentença dessas, passar a vida tomando antidepressivos e correndo o risco de cruzar com o assassino dos nossos filhos na fila do cinema do shopping como se nada tivesse acontecido.
E, se pararmos pra pensar, para eles, com as bênçãos da lei, realmente nada aconteceu!


sexta-feira, 2 de maio de 2014

A AUDIÊNCIA


Audiência.

Esperei três anos por este dia.

O dia da audiência, para quem padece da dor da perda, é um divisor de águas.

Antes dela, ficamos a imaginar quão punido o culpado será, ainda que saibamos que a lei nos apunhale.

E sim, ela nos apunhala!

Nos apunhala a cada artigo, cada inciso, cada vírgula...

Hoje fui ao fórum.

Estava ciente de que, mesmo se tratando de uma audiência pública, muito provavelmente não poderia entrar na sala de audiência por não ser uma testemunha intimada.

Fui autorizada a permanecer dentro da sala somente durante o depoimento do pai da Bianca sendo que, após a finalização deste, ele também teria que se retirar para que o réu pudesse depor.

Preferi não entrar, pois esta parte da história eu já conheço.

Entendi a posição do juiz como uma preservação a ordem, afinal, o réu mentiria!

O juiz estava certo...

Até tentei argumentar que não me manifestaria, mas era mentira. Quem me conhece sabe muito bem que eu sairia no braço com ele ali mesmo na vara criminal.

O vi chegar com sua cara de assassino e com seu advogado, mas não fui vista.

Tornei a vê-lo quando o tiraram da sala onde ficam os réus que aguardam seus julgamentos e o encaminharam à sala de audiência.

Novamente não fui vista.

Saí dali, carregando comigo, todos os socos e arranhões que estavam reservados a ele.


Só me acalmei um pouco quando reconheci, na sala das tertemunhas de acusação, o policial que registrou a ocorrência e que foi até o hospital naquela noite conversar comigo.

Relembramos o episódio em que ele falava comigo dentro da emergência e eu só repetia:

"Se minha filha não sair andando desse hospital, vou matar aquele cara."

Que coisa... Ele se lembrava daquilo!

Cícero Pedro... Este é o nome do policial que, por alguma razão, em meio a tantas ocorrências nesses três anos, nunca se esqueceu de nós e nem da minha filha jogada naquela calçada.

Admitiu que, se estivesse em meu lugar, já teria cumprido a promessa que fiz...

Segurar a mão daquele homem naquele momento, abraçá-lo e agradecê-lo foi tudo o que pude fazer.

Não sabemos o que foi dito diante do juiz, assim como ainda não temos a sentença. Tenho até medo de ler quando esta for publicada...

Ali, no fórum, vi casos de crime de trânsito serem negociados pela defensoria pública em pleno corredor, onde o próprio réu escolhia qual das penas alternativas gostaria de cumprir:

- Serviços comunitários, doação de cestas básicas para a comunidade ou doação de sangue? - questionava a estagiária da defensoria.

Um réu, bem aliviado, disse que PREFERIA a doação de sangue, e assim a estagiária começou a fazer a anamnese encaminhada pelo hemonúcleo pra saber se o infrator poderia ser enquadrado como doador.

Diante de tudo o que passei até agora, muita coisa aprendi.

Talvez a coisa mais importante tenha sido que nunca devemos deixar as pessoas sozinhas, principalmente quando elas precisam de ajuda.

Outra coisa é que, pessoas que precisam de ajuda, NUNCA a pede com palavras.

Portanto, vamos abrir os olhos e o coração para a dor do outro e nos fazer presentes à medida que isso for possível.

Muito obrigada a todas as mulheres envolvidas na campanha #NãoFoiAcidente, minhas amigas de luta, solidárias e parceiras que, mesmo com toda a dor que carregam, ainda conseguem abraçar a dor do outro.

Vou repetir uma coisa que escrevi um dia aqui no blog e que, a cada dia, acredito mais e mais:

"A mão mais amiga é, muitas vezes, uma mão anônima."

Assim que sair a sentença, vou dividir com aqueles que se preocuparam comigo e que, de alguma forma, se fizeram presentes no dia de ontem.

Muito obrigada!


(À minha mãe, vou fornecer o endereço do fórum caso um dia ela tenha um lampejo de interesse por este assunto e resolva saber "no que deu" a morte da neta dela.)

sábado, 2 de março de 2013

HORA DE DAR TCHAU



Quando comecei a escrever o blog, foi uma maneira que encontrei de externar minha dor, raiva, revolta, tristeza, saudade e, de certa forma, manter a Bianca viva na memória das pessoas.
Acabei dividindo todas as etapas do luto não só com pessoas conhecidas, mas, também, com pessoas que não faço idéia sobre quem sejam.
O blog teve acessos frequentes e fiéis dos Estados Unidos, Austrália, Alemanha, Japão, Suíça e Portugal.
Em alguns desses países, tenho conhecidos que residem. Em outros, não!
O blog foi encontrado por muitas pessoas totalmente por acaso (em alguma pesquisa no google) e acabou transformando essas pessoas em leitoras assíduas e comentaristas presentes.
Isso acabou me colocando em contato com outras mães que perderam seus filhos (por acidente ou por doença) e com alguns pais que se sensibilizavam com os textos e que me escreviam email's durante a madrugada, contando que estavam ao lado de seus filhotes pequenos que dormiam naquele momento, enquanto eles (pais) estavam em prantos tentando imaginar uma perda como a minha na vida deles.
O blog trouxe, também, muitos adolescentes pra minha vida.
Não só os amigos dos meus filhos, que acabaram ficando mais próximos de mim por conta do que aconteceu, mas também adolescentes que, assim como os pais que citei, também tinham alguma história pra contar e se sentiram à vontade para compartilhar comigo em razão de algo que postei e que, de certa forma, serviu a eles de alguma maneira.
Então, percebi que a coisa toda havia tomado uma proporção que nunca havia planejado.
A molecada queria ter uma mãe como eu e, os pais em luto, se espelhavam na minha aparente força para não enlouquecerem.
Percebi que cada palavra escrita aqui, já não era mais tratada simplesmente como um desabafo.
Cada palavra, cada frase, estava atingindo diretamente centenas de pessoas que me procuravam para dividir seus problemas.
Foi muito bom saber que algumas pessoas realmente entendiam meus desabafos de mãe que perdera a filha.
Foi enlouquecedor saber, de alguns filhos, a maneira rude que eram tratados por seus pais em casa.
Foi irritante, também, a tentativa de algumas poucas pessoas em me enfiar 'goela abaixo' todas aquelas historinhas sobre deus.
Cada retorno que recebi, cada pessoa que me escreveu se dizendo ajudada pelas minhas palavras, cada um daqueles que discutiram deus comigo, cada um que respeitou minha falta de fé, cada pessoa que se colocou em meu lugar sem me julgar, enfim, a todos que acompanharam o blog durante esses dois anos que se passaram desde que minha Bianca fora tirada de mim, só tenho que dizer muito obrigada.
Vocês não podem imaginar o bem que me fizeram...
Quando comecei a escrever, intimamente me perguntei: "Até quando?”.
Sabia que, um dia, as pessoas já não se importariam tanto e que meus textos cairiam numa redundância irritante.
Adoraria encerrar este 'capítulo' com palavras do tipo:

"E, então, o senhor Jair Juiz, atropelador irresponsável que matou minha filha em cima de uma calçada, fora condenado a alguns anos de cadeia".



Infelizmente, as coisas não são como gostaríamos que fossem.
Meu amor por ela é imenso e igualmente proporcional ao meu ódio por ele, e isso nunca vai mudar.
Nunca vou esquecer disso, entendeu, senhor Jair? Nunca.
Eventualmente, pode ser que eu ainda poste alguma coisa aqui.
Espero, breve, poder comemorar a meta atingida da campanha www.naofoiacidente.org e a diminuição drástica dos crimes de trânsito.
Sobre meu amor e revolta, nada mudou.
Não aceito e nunca vou aceitar o que aconteceu.
Acontece que, aquela dor real que faz o coração sangrar e a cabeça explodir, esta só mora em mim agora.
É preciso saber a hora de parar, e não há melhor hora para isso quando tudo ainda está belo...
Muito obrigada pelo carinho de todos!

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

730 DIAS



Não tem como evitar o pensamento de como teria sido aquele dia se algumas coisas tivessem acontecido de maneira diferente.
O tão famoso 'e se...?' não nos leva à nada, eu sei.
Mas, pensar nisso, é praticamente inevitável!
Não que eu passe os dias me torturando com esse pensamento, mas penso nisso algumas vezes sim.
Penso como teria sido se, quando me separei do seu pai, sua vó tivesse me dado guarida na casa dela conforme pedi...
Se isso tivesse acontecido, você não estaria naquele ponto de ônibus naquele dia.
E se, naquele dia, meu pagamento tivesse sido creditado logo de manhã na conta ao invés de ter sido no final da tarde?
Certamente, teríamos ido às compras no meu horário de almoço.
Se tivesse sido assim, você não estaria naquele ponto de ônibus àquele horário.
E se eu tivesse dito pra você não me encontrar na saída do trabalho, pois deixaríamos as compras para o dia seguinte?
Você, definitivamente, teria ficado puta da vida comigo, mas não estaria naquele ponto de ônibus de maneira alguma.
Acho que todas as mães órfãs pensam coisas assim de vez em quando...
E se eu tivesse faltado ao trabalho?
E se não tivéssemos nos mudado pra Sorocaba?
E se tivéssemos escolhido aquela outra casa naquela outra rua?
E se você tivesse caído ao chão com as mãos amparando a queda? Será que teria tido o trauma craniano que teve?
Hoje, seu atropelamento completa dois anos.
Dois anos significam 730 dias sem você.
São 730 dias de insônia, de dor, de revolta, desespero e saudade.



Domingo passado estive no seu cantinho e levei as flores que o Jean mandou.
Como ele é lindo, Bi...
Hoje, a vó Dette me ligou pra contar que foi até o cemitério só pra conferir se alguém tinha roubado seus vasos!
Disse que estavam todos lá, bem floridinhos...
Florido, mesmo, era seu sorriso: aquele que não só me fazia esquecer dos problemas como, também, me fazia crer que o dia seguinte sempre seria melhor!
Amo você...





domingo, 30 de dezembro de 2012

CIRANDA DE PAIS


Dia desses, no carro, a Ivy me perguntou:

- Mãe, onde era mesmo que a Tata sentava aqui no carro?

Quando eu dirigia, ela era minha carona. Sempre ao meu lado.
Quando eu era a carona, ela sempre se sentava no banco de trás, bem atrás de mim.
Não tem como esquecer, pois além de ficar mexendo no meu cabelo, a gente trocava olhares e risos via retrovisor a cada 'gatinho' que passava no carro ao lado.
A Ivy duvidou, discutiu e nada a convenceu.
Percebi que algumas coisas começaram a se desmanchar em sua memória...
Apesar de ser natural, isso me deixou um pouco abalada.
Nesses últimos dias, estou absolutamente derrotada.
Não por causa do natal, o segundo sem ela...
Natal, pra mim, não faz sentido algum além da comilança infinita na casa da minha vó e das crianças se acabando de ganhar presentes.
Mas o ano novo... Esse sim me destrói!
Não sei como as outras 'mães órfãs' se sentem sobre isso.
Sinto como se estivesse rodeada por pessoas - familiares e amigos - folheando um grosso livro de memórias pertencente à uma vasta enciclopédia sobre a vida da Bianca.
Cada página, cada ilustração, cada frase, cada acontecimento... Tudo isso está ali.
De repente, no dia 31 de dezembro, termino de ler a última linha de um desses livros e, inevitavelmente, preciso fechar a contracapa.
Nesse momento, quando fecho o livro, o número de pessoas interessadas por essa história, é reduzido à metade.
No dia 01 de janeiro, sei que vou começar a folhear mais um volume dessa enciclopédia com a mesma saudade, com a mesma indignação e a mesma dor.
Sei, também, que a platéia sentada a meu redor, estará diminuta.
A cada novo volume iniciado todo dia 01 de janeiro pelos próximos anos da minha vida, será assim.
Cada vez menos gente em torno da minha poltrona, até que passarei a fazer a leitura de maneira silenciosa.
Isso também é natural!
Só gostaria que passasse rápido...
Estou falando da minha vida.
Queria que passasse rápido, acabasse rápido e que a senilidade se abrigasse em mim antes da hora...
A vida de uma mãe órfã navega entre o sensato e o hediondo com a mesma naturalidade e direito, e passa a ficar à deriva sem saber onde aportar.





Um grande abraço à todas aquelas pecinhas que formam o imenso 'MOSAICO DE HISTÓRIAS' da campanha NãoFoiAcidente.
Formamos um grande grupo de luta por uma mesma causa e, mesmo que não tenhamos o contato físico tão fundamental para que algumas pessoas rotulem o outro como amigo, temos uma coisa muito maior.
Nós conhecemos, entendemos e não julgamos a dor do outro.
Nos ouvimos, nos apoiamos e tentamos fazer a diferença para que chegue o dia em que esse 'MOSAICO' pare de crescer.
Rosmary Mariano, obrigada por fazer essa ponte entre todos nós.
É estendendo a mão à quem está ao nosso lado que conseguimos formar uma imensa ciranda.
E esta, em breve, terá sido a ciranda responsável pela mais persistente campanha com resultados efetivos nesse país: www.naofoiacidente.org



sábado, 8 de dezembro de 2012

VOCÊ CONHECE UMA MÃE QUE PERDEU UM FILHO?


Você conhece uma mãe que perdeu um filho?
Então telefone pra ela, conte-lhe sobre um filme que você assistiu!
Com certeza ela não vai se interessar pelo que você está contando, mas vai se lembrar que alguém ligou pra ela.
Passe na casa dela!
Eu sei..... É desagradável visitar alguém que sofre, mas diga que está com pressa, minta...
Ela nem vai perceber que você está mentindo...
Abrace-a!
Um abraço apertado, gostoso... Se ela molhar sua roupa, tudo bem! É só lavar depois.
Se você fizer um bolo, leve um pedaço pra ela!
Um bolo nunca mais terá gosto de festa, mas pode ter gostinho de amizade.
Deixe que ela fale sobre seu filho. Vivo ou morto, é o filho dela!
Ela tem saudade, ela tem lembranças, ela tem que viver!
Sobra tão pouco pra uma mãe que perdeu um filho, que independente de quantos ela tenha, um simples sorriso pode iluminar seu dia!
Você sabe o que é solidão?
Não?
Então, lembre-se dela.
Não diga o que ela tem que fazer!
Ela não tem que fazer mais nada...
E jamais diga: " Esqueça , já passou!" ou "Você tem que seguir sua vida!".
Apenas ouça o que ela tem a dizer. Faça-lhe companhia...
Se você conhece uma mãe que perdeu seu filho, abrace o seu.
Não tenha medo de dizer "te amo".
Eu sei, adolescente é chato, mas ele vai gostar de ouvir!
Já é adulto?
Não tem importância...
Diga-lhe: "estou aqui".

Fonte:http://www.apoiomae.blogger.com.br/

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

PALAVRAS DE ALGUÉM QUE ATROPELOU


Dois meses após a morte da Bianca, recebi um email de uma leitora desconhecida.
Para minha total surpresa, se tratava de uma pessoa que vivera o lado inverso do atropelamento.
Ela, cujo nome não importa, foi a motorista envolvida num atropelamento que tirou a vida de uma menina de 18 anos.
Não serei, aqui, 'advogada' de defesa ou acusação.
Apenas gostaria de compartilhar com vocês este relato que considero forte e corajoso:



"Olá, li seu blog inteiro hoje de noite e resolvi escrever pra ver se consigo te dar algum tipo de tranquilidade frente ao que aconteceu com sua filha.

Peço, antes de me julgar, de me responder ou até de publicar esse email, que leia até o final o que eu tenho pra te dizer.

Hoje, falo pra você como uma mãe também.

Me tornei mãe há exatos 19 dias e, só a partir daquele momento, pude mensurar o que é a dor de perder um filho.

Não, comigo não aconteceu algo assim!

Mas fui a outra parte.

Essa mesma parte que é motivo do teu ódio hoje.

No final do ano de 2004, fui o motivo de ódio de outra mãe.

Veja, não quero sob hipótese alguma defender quaisquer pessoas. Quero só que você leia...

Naquele dia, eu atropelei uma menina que acabara de fazer 18 anos.

Não sei como foi o acidente da Bianca mas, no meu caso, eu estava na BR, indo pra faculdade (eu com 21 anos) quando aconteceu.

Meu carro era novo, eu não estava bêbada, nem drogada, nem rápido demais, nem nada errado.

Mas eu fui o veículo que ligou a vida e a morte de uma menina com todo o futuro pela frente.

Você deve estar se perguntando o por quê de estar te contando isso.

Queria só que você soubesse que eu, do outro lado, também sinto!

Chorei imensamente quando li seu blog não só de emoção me colocando no lugar de uma mãe, mas também porque entendi o sentimento que causei mesmo que acidentalmente (se quiser te mostro todo meu processo criminal e cível.

Depois daquele dia eu não dormi mais. Depois daquele dia, viver, pra mim, se tornou obrigação.

Eu não sei como se sente o dono do teu ódio, mas te digo com propriedade que se ele for como eu, dotado de sentimentos, de dores e do mínimo de entendimento do que é ter um filho, a tua vingança já é presente e equivalente à tua dor.

Veja, te digo isso como mãe.

Eu sou mãe.

E sou "assassina" aos olhos de outra mãe.

E meu sentimento é proporcional...

Amo incondicionalmente minha filha, odeio igualmente aquele dia e todos os outros que se seguiram depois dele.

Eu sofri e sofro até hoje por aquele dia.

Sofri por estar ali, sofri por mim, por ela e pela mãe dela.

Sofri por eu ser incapaz de mudar os fatos.

Sofri e sofro porque daria, sem sombra de dúvidas, a minha vida no lugar da dela, pois assim ela viveria (eu apenas sobrevivo).

Não quero retirar de você qualquer sentimento em relação àquele homem. Quero só que você saiba que se ele for capaz de sentir alguma coisa, ele já está pagando pelo acontecido.

Não quero colocar ninguém como vítima no lugar de réu.

Mas que o teu desejo dele colocar uma corda no pescoço e se pendurar numa árvore é menos válido do que ele continuar vivendo.

Eu desejei a morte todos os dias até minha filha ser concebida. E esse desejo é o que consome, o que acaba com a gente.

Garanto que ele tá pagando pelo que fez.

Se ele é culpado? Não sei, mas só sei que se ele sente, o sentimento dele tá fazendo ele pagar por tudo, tenha certeza.

Espero que tenha entendido o que eu quis te passar.

Te entendo como mãe... Juro que entendo!

Só quero que você consiga ver que não precisa de absolutamente desejo nenhum seu para que ele sofra: se ele é digno, ele já está.

Isso vai fazer com que você consiga transformar tua falta em saudade. E saudade não dói. Assim você não alimenta mais esse rancor que te consome e dá espaço somente pros sentimentos referentes à sua filha.

E é bem mais saudável...

Na verdade eu nem acho que você deva se colocar no lugar dele nesse momento, mesmo porque você vive uma fase de luto e seria anormal não ter um sentimento de revolta.

Acredite, eu que passei por isso na situação inversa não condeno jamais nem você e nem a mãe da ‘minha menina’ em me chamar de assassina, de pensar assim e de querer um culpado.

Independente de quem é a culpa, nós sobrevivemos e isso causa sim uma revolta.

Eu entendo perfeitamente a mãe dela querer me ver da pior maneira possível. Entendo a mãe dela me odiar.

Talvez não seja nem ódio por mim, mas por eu estar ali, por ter sido através de mim que ela foi separada da filha.

E eu acho válido esse sentimento, mesmo porque não acredito que sentimentos ruins sejam de todo mal assim...
Talvez seja melhor eu ser a culpada na visão dela do que ela mesma se culpar...

A justiça demorou 5 anos pra entrar com o pedido no Ministério Público pra investigar o meu acidente.

Não sei como está com você, só sei que essa demora dilacera a gente, pois nós, dos dois lados, queremos respostas e uma definição.

Fui processada civilmente pela família dela e, felizmente pra mim, ganhei a ação porque a quantia que me pediam era simplesmente absurda (em torno de 500 mil reais se fôssemos juntar as custas de advogado e indenização).

Infelizmente, nunca pude dar pra essa mãe sequer um telefonema dizendo que eu também sinto.

Fui proibida pelo meu advogado de entrar em contato com eles pois sofri ameaças.
Se ele é culpado, ele vai pagar por isso, tenha certeza.

Talvez não na justiça daqui, mas da própria consciência.

Independente dele estar em perfeitas condições, se houve um único erro, esse não vai deixar com que ele durma tranquilamente em nenhum outro dia da vida dele.

E pagar, assim, já é o pior dos castigos.

Concordo com você que corremos o risco de acidentes a todo momento.

Mas isso não tira nossa responsabilidade sobre isso.

Veja, eu to te falando como alguém que atropelou, não como alguém querendo ser vitima!

Eu me responsabilizei e acho que ele também deve.

Pra nós, a parte ruim da historia toda, faz até bem ter essa responsabilidade. Assim a gente tem o mínimo de consciência para atos futuros.

Independente de culpabilidade, é importante a gente ter responsabilidade.

Queria te deixar claro que se você resolver abrir um processo, tem todo o meu apoio.

Isso vai criar em você algumas feridas mas, ao mesmo tempo, talvez te traga algum conforto. Não em questão financeira, mas em questão de responsabilidade mesmo.

Também não acho que você vai ter que assimilar que foi um acidente porque a versão dele pode ser comprovada. É o que eu te disse, no meu caso, eu não estava bêbada, nem drogada, minha velocidade era de 77 km/h na BR onde o máximo era 80 km/h, meu carro era novo, estava chovendo, e ela atravessou em local errado a BR.

Se você for analisar pelo meu lado, eu penso que se alguém teve culpa, foi ela. Mas veja bem, ‘eu’ penso. Não precisa ninguém mais pensar...

Isso me conforta em saber que não fui imprudente.

Mas, para a família dela, eu sempre vou ser a assassina, a culpada.

E que mal há nisso?

Caso você se sentir mais confortada em pensar assim, também não vai haver mal algum.
Sinceramente, não acredito que a minha dor seja maior que a sua.

Deus que me perdoe, mas eu escolho passar por um acidente assim mais 20 vezes do que algo acontecer com a minha filha.

Como você disse, é muito recente.

Mas não se engane que as coisas passam...

Na verdade, a gente aprende a conviver com isso tudo. E você ainda não está na fase de aprendizado.

Continue expressando a tua dor, porque mesmo sem você imaginar, está ajudando pelo menos uma pessoa.

Eu me sinto ajudada por você.

E, por isso, só tenho a te agradecer."

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A 'PELINHA' DOS OLHOS

- Mãe, o que é a córnea que você doou quando a Tata morreu?

- Ah Ivy... Nos olhos da gente, existe uma ‘pelinha’ bem fininha que faz com que a gente enxergue. Quando a gente morre, ela não nos serve mais pra nada, mas pode ajudar uma ou duas pessoas a voltar a enxergar.

- Mas como que é?

Sabia que ela estava assuntando pra saber se haviam retirado os olhos da irmã dela ou não.

- Bom, levaram a Tata pra uma sala lá no hospital e retiraram, com todo cuidado, a ‘pelinha’ transparente que cobria os olhos dela. Depois, guardaram num lugar especial.

- E quem é que tá com a ‘pelinha’ da Tata?

- Isso a gente nunca vai saber, Ivy... E não importa! Existe uma lista de espera cheia de pessoas que não enxergam ou que enxergam quase nada. Os médicos olham a lista e vão chamando as pessoas conforme as doações são feitas.

- Legal!


Encerrou-se o assunto.

Como moramos na cidade onde está localizado um dos maiores Banco de Olhos do Brasil, vez ou outra acaba sendo divulgado algum comercial na televisão sobre o assunto.

Dia desses, quando uma mulher transplantada dava seu depoimento, ela me perguntou:

- Será que a pelinha da Tata tá no olho dessa mulher?

É lindo poder esclarecer e conscientizar uma criaturinha tão pequena.

A prova de que a franqueza funcionou foi o bilhetinho que encontrei hoje, escrito por ela como se fosse a Bianca, e que logo em seguida rabiscou por cima:





"Mãe

Obrigada por você doar a pelinha dos olhos.

Bjs

Bianca"

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

MAIS UM ANIVERSÁRIO


Mais um ano que não terei a quem dar parabéns neste dia.

Hoje, você faria 17 anos!

Nossa...

Minha filha com 17 anos!

Aquele abraço de aniversário, com um cheiro no pescoço e a gente imitando as palavras recorrentes que a bisa costuma dizer nessas datas, não acontecerá.

Saiba que meu amor se fortalece a cada dia, e que não há um só minuto que eu viva sem pensar em você.

Não há um só minuto, também, em que eu me conforme com isso tudo.

O Nícollas tem me dado trabalho e, por mais que eu saiba que um filho não é igual ao outro, gostaria que ele tivesse comigo a mesma relação que nós duas tínhamos.

Mas você sabe... Ele é um menino difícil...

Enfim, amor, não tenho tido muita vontade de escrever ultimamente.

E, revezando entre ‘surto e razão’, vou continuando o mecânico hábito de respirar!

Te amo...


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

DOR INCURÁVEL


Cada dia mais, tenho sentido sua falta...

A dor da ausência é incurável.

Tenho aprendido que algumas coisas nunca mudam, que alguns sentimentos nunca voltam e que, outros, nunca serão esquecidos.

Pelo bem dos seus irmãos, deixei, para trás, alguns sonhos.

Regredi, praticamente, todo o caminho percorrido até então...

Por eles, e só por eles, faço qualquer esforço!

Mas, às vezes, me pergunto até quando vou me anular e deixar de viver coisas que me façam feliz.

Preciso encontrar forças pra voltar ao trabalho, porque vou enlouquecer ficando em casa como uma ‘mulherzinha de antigamente'.

Você sabe que nunca fui assim.

Mas o que a gente não sabe é como a vida muda depois da perda de um filho.

Como minha vida mudou depois de ter perdido você!

Outro dia, me coloquei a arrumar guarda-roupa e papelada porque, ‘caso eu morresse subitamente’, ninguém precisaria ficar xeretando minhas coisas. E, quando vou dormir, sempre deixo uma troca de roupa ‘ajeitada’ no canto do armário para qualquer emergência noturna.

Esforço-me para não transferir meus medos aos seus irmãos.

Certamente, eles já têm os próprios...

Minha concentração não anda boa, minha cabeça tem estado em nós.

Tá tudo tão esquisito que, além dos esquecimentos terem se tornado uma constante, outro dia não conseguia separar três reais em moedas pra pagar um negócio na quitanda.

Contei, recontei e desisti: troquei uma nota de cinco.

Em meio a tanta dor, sinto falta de amar de novo.

Sinto a imensa falta de um colo que me assegure que tudo vai ficar bem.

Quero que alguém me convença de que as coisas vão melhorar, que alguém me acolha e me deixe, ao menos por um tempo, sem as preocupações das coisas práticas da vida.

Eu preciso me descabelar em paz, sabe?

Tem coisas que quero te falar e não te tenho mais aqui.

Aí, ouço de um monte de gente que você pode me ouvir, mas isso não me basta.

Isso NÃO me basta!

Já quis morrer, e ainda quero às vezes...

Mas penso que, se isso acontecesse, a Ivy ficaria desesperada e, o Nícollas, se tornaria um perdido.

Aí, desisto! Eu os amo demais para morrer e deixar que outras pessoas se encarreguem de cuidar do que é meu.

Sempre fui assim...

O que é meu, é meu!

Enquanto não morro, não piro de vez e não fujo dessa droga de vida, vou tentando desempenhar meu papel como posso.

Mesmo com meu coração moído, te amo a cada minuto do meu dia!